sábado, 15 de junho de 2013

Participação da equipa (Caminho Francês)

 
Participação a cargo de:
João Valério

Logística:
Filipe Rodrigues

À semelhança de anos anteriores e desde 2010 a esta data, altura em que formámos um grupo de elementos e amigos oriundos de várias equipas, adeptos de travessias, que anualmente nos propomos a realizar um desafio/aventura com alguns dias de duração. Desta vez o objectivo foi a realização do Caminho Francês, desde Saint-Jean-Pied-de-Port (Pirenéus - França) ao Cabo Finisterra (Galiza - Espanha), passando pela incontornável e obrigatória Catedral de Santiago de Compostela. 

A ideia surgiu-me no decorrer de 2012, após ter pesquisado diversa informação relativa a este caminho religioso, em particular no blogue do João Marinho, e foi no decorrer do jantar de natal de família que propus ao meu irmão Renato realizarmos esta aventura em 2013. Ele achou a ideia interessante e decidimos reunir o grupo do costume para os desafiar a acompanharem-nos.

Foram inúmeros meses de planeamento (ver Logística - Parte I e Logística - Parte II), com a realização de diversas reuniões e contatos entre nós, ponderações, decisões, avaliações, testes a material, pesquisa de tracks e informações, angariação de apoios e colaborações... até finalmente ter-mos o grupo completo e fechado, e todas as opções previstas e sintetizadas. Com pouco dinheiro disponível, mas com muita fome de aventura, tudo se foi encaminhando até à data prevista para a partida: 07 de Junho de 2013.


 
O nosso elemento Filipe Rodrigues, na companhia da Rita Calado, transportaram o grupo de aventureiros - eu (João Valério), Renato Valério, Manuel Maia e Marco Lopes (estes 3 da equipa Fôjo-Zybex BTT Team), desde Abrantes até Saint-Jean-Pied-de-Port numa distância de 878km, quase sempre por autoestrada e onde à data gastámos, em conjunto, um pouco mais de 100€. A apenas 5km de terminarmos a viagem (de carro) tivemos o primeiro incidente que chegou a colocar em causa todo o planeamento: a lança do atrelado onde transportávamos as bicicletas, partiu e quase se desprendeu totalmente, só não aconteceu por milagre. Combinámos entre nós que não iríamos desfazer a barba enquanto não terminássemos esta travessia, sendo mais uma forma de assumirmos o espírito e aspeto do verdadeiro peregrino.

Mesmo antes de iniciarmos a travessia propriamente dita, colocámos em prática a dinâmica característica do nosso grupo. Foi necessário chamar a assistência em viagem e o atrelado viria a ser entregue em Portugal... apenas 1 mês e meio depois. Quanto a nós, tivemos de ligar para o Albergue que tínhamos reservado e fazer aqueles 5km que serviram de prólogo até lá, já de bicicleta e com os trailers montados, parcialmente sob chuva intensa.

IMPORTANTE: Antes de avançar na crónica, esclareço que todo este caminho, mundialmente conhecido e uma das mais populares rotas religiosas, se encontra devidamente sinalizado, fácil de seguir, não havendo necessidade de recorrer ou transportar connosco GPS.

ETAPA 0 (06/06/2013): 
Abrantes » Saint-Jean-Pied-de-Port - Realizado em automóvel

 
O albergue por nós reservado em Saint-Jean-Pied-de-Port foi o L'Esprit du Chemin, que se localiza junto ao percurso do camino e onde iríamos dar início à aventura, por sinal uma localidade escolhida pela maioria dos peregrinos e bicigrinos para esse fim. Após o check-in juntá-mos-nos aos restantes aventureiros de nacionalidades diversas que já ali se encontravam para o jantar de boas-vindas, o qual foi uma agradável surpresa e interessante experiência que nunca iremos esquecer, pois cumpriu-se uma tradição daquele estabelecimento gerido por ex-peregrinas de nacionalidades alemã e holandesa, que consiste em cada um apresentar-se e indicar os motivos da sua aventura após o que lança uma pequena bola de borracha a um outro elemento presente para que faça o mesmo.


Após o jantar, dirigimos-nos rapidamente à oficina do peregrino, localizada defronte ao albergue, pois encerrava cedo, onde adquirimos as nossas Credenciais (ou Passaportes) de Peregrino e nos inteirámos de algumas informações. Por exemplo, ficámos a saber que existem 2 caminhos válidos para atravessar os Pirenéus: um fácil e um difícil, com distâncias idênticas mas dificuldades bem diferentes, pois enquanto o +fácil percorre uma zona de vales, o outro +difícil sobe ao topo das montanhas. Após breve discussão optámos por escolher o mais difícil, pois seria o que nos levaria a uma maior altitude e nos permitiria ver e conhecer as deslumbrantes paisagens dos Pirenéus.


O ambiente familiar e confortável do albergue, onde dormimos em quartos de camas múltiplas e beliches, partilhando o espaço com outros dois peregrinos estrangeiros, viria a servir de referência para o resto da jornada. Considerei ter um estilo muito idêntico ao dos hostels.

À semelhança de outras aventuras que já realizámos, uma vez mais criámos um dorsal para nos identificar e que utilizámos durante toda a jornada, após a qual guardámos religiosamente. Obrigado à Laser Site pela fabricação e oferta dos mesmos.


 
 
O primeiro dia de aventura amanheceu com um sol magnífico sobre as típicas casas e tradicionais ruas calcetadas. Após o diversificado pequeno-almoço montámos as burras e fizemos-nos ao caminho, não sem antes colocar o nosso primeiro selo/carimbo na Credencial/Passaporte do Peregrino logo ali no albergue onde pernoitáramos e tirarmos uma foto de grupo com as proprietárias do alojamento, tendo-se então juntado nós um bicigrino (peregrino que viaja de bicicleta) espanhol nascido na Bélgica, de seu nome Rafa Gómez, o qual havia também pernoitado ali.

 
Esta 1.ª Etapa seria a mais difícil de todas em termos de acumulado (1.990 metros D+), pois teríamos de transpor os Pirenéus (escreve-se mesmo assim) subindo até aos 1.426 metros de altitude, após o que entraríamos em território espanhol.

 
Foi com muitas ganas que começámos desde logo a subir, com uma inclinação bastante acentuada que se manteria até ao km21. Os primeiros 5km foram devastadores em termos físicos apesar de eu ter treinado medianamente, tendo-me desde logo questionado se o uso dos trailers teria sido a opção correta, tal era a dificuldade em puxar os cerca de 18kg (trailer + bagagem). Era a custo que conseguíamos ir ultrapassando as dezenas de peregrinos que caminhavam ao longo do bem sinalizado caminho, maioritariamente asfaltado. O Rafa Gómez, novo membro do grupo, depressa se fartou de nós (do nosso andamento) e a um ritmo bem mais elevado seguiu caminho com os seus alforges.

 
 
 
Antes do km10 tivemos o primeiro problema mecânico. O Renato torceu a chaveta de aperto da roda traseira, na qual engatava a lança do seu trailer, mas com a destreza do Manel e alguma atitude positiva conseguimos desempená-la e seguir caminho com confiança. As paisagens são por ali magníficas! Muitos animais à solta espalhados ao longo das infindáveis paisagens verdes, à medida que subíamos acima do denso e frio nevoeiro, após o que nos esperava um sol radiante.

 
Aos 16km, já acima dos 1.250 metros de altitude e a escassos quilómetros de começarmos a descida, após havermos tido o privilégio de avistar a única concentração de neve que veríamos ao longo do percurso, deparámos-nos com uma roulote de um francês que vendia bebidas (quentes e frias), bolos, fruta, sandes e uma enorme diversidade de outras coisas, onde parámos para beber café, coca-cola e comer algo, aproveitando para colocar no passaporte aquele que seria o 2.º e último selo em território francês.



A partir dos 17km e depois de passarmos a placa identificativa que consta na foto, começámos a descer os pirenéus com uma adrenalina fantástica e com os trailers a responderem magnificamente.

 
 
Parámos para almoçar, já em Espanha, mais concretamente em Roncesvalles, onde comemos uns bocadillos acompanhados de umas cañas, onde encontrámos um outro grupo de bicigrinos portugueses, após o que continuámos pelo interior de uns belos bosques quase sempre a descer, em cujo trilho encontrámos algumas raízes a cruzá-lo, mas nada de impraticável, pois a maioria do terreno era em terra rija e maioritariamente single tracks.

 
 
Achei bastante surpreendente o facto de apanharmos diversas cancelas e portões de quando em vez, que nos obrigava a parar para os abrir e voltar a fechar após a nossa passagem, supostamente para evitar que o gado se evadisse para terrenos alheios. Por vezes chegámos mesmo a percorrer algumas dezenas de metros sobre chão empedrado e cimentado.

 
 
A segunda parte desta primeira etapa decorreu sem sobressaltos, quase toda ela percorrida junto às margens de um rio (o Arga), onde encontrámos muitos peregrinos e bicigrinos, na maioria portugueses e brasileiros, mas também alguns espanhóis. 

Conforme planeado, atingimos o final desta primeira etapa em Pamplona, pouco depois das 17h00, onde reencontrámos o Rafa já junto do albergue que havia reservado para ele e para nós... pelo tempo possível, mas entretanto na última hora tinha sido todo ocupado e a nossa reserva foi anulada. Felizmente e com a ajuda do Rafa, não foi muito difícil encontrar um outro albergue (municipal) - Albergue de Jesús y María, localizado ali próximo e bem no centro da cidade, pela módica quantia de 8€/pessoa (sem refeições). É um espaço enorme, com mais de 100 lugares (beliches) dispostos em dois andares e ao longo de extensos corredores mistos (homens/mulheres), tais como as casas de banho. No hall de entrada é possível guardar haveres e bikes, o que fizemos. Possui também uma casa de máquinas, onde por algumas moedas podemos utilizar máquinas de lavar e secar roupa, que aproveitei para lavar o equipamento utilizado no primeiro dia.

Após deixarmos as nossas coisas no albergue e trocado de roupa, o Rafa acompanhou-nos num pequeno passeio pela bonita e famosa cidade de Pamplona, conhecida pela sua grandiosa festa de San Firmin, no início de Julho onde acontecem diversas largadas de touros pelas ruas que se apinham de gente. Após o jantar, ainda passámos por um loja de indianos onde comprámos alguma comida para o pequeno-almoço, pois no albergue onde estávamos hospedados não confecionavam refeições nem existia condições ou espaço para tal. Fomos dormir cedo e cada um de nós gastou um total de cerca de 25,50€ no decorrer desta etapa.

RESUMO DA ETAPA #1 (Garmin connect)
Extensão: 65,44km | Velocidade média: 6,5km/h
Altimetria: 1.990m D+ | Variação de altitude: 177m/1.426m
Variação de temperatura: 16ºC / 28ºC
Tempo total: 09h59m25s | Tempo movimento: 07h23m29s


ETAPA #2 (08/06/2013):

Uma das regras desta jornada foi levantar cedo! A partir das 05h00 começámos a ouvir tocar os primeiros despertadores, mas o nosso só nos "incomodou" às 06h15. Choveu intensamente durante toda a noite. Como dormimos no 1.º andar, o barulho da chuva a bater no telhado misturou-se com o ruído provocado pelas dezenas de roncadores, ecoando-se no interior do gigantesco edifício. Levantei-me diversas vezes durante a noite, devida à agitação própria do ambiente, tendo numa delas ido tirar as roupas da máquina de lavar e colocar na de secar. Já de manhã, optei por vestir o equipamento recém-lavado e ainda húmido, antecipando a molha que me esperava lá fora. Após desfazermos as camas e reunirmos o material, o grupo juntou-se próximo à entrada onde improvisámos um pequeno-almoço com o farnel que compráramos na noite anterior.


Eram já perto das 07h30 quando saímos de Pamplona e iniciámos a 2.ª etapa. Pela frente tínhamos um dia de provação, pois a chuva, apesar de ter abrandado, não parecia que fosse parar tão cedo. O céu estava bastante escuro e carregado de nuvens. A saída da zona urbana não foi muito fácil, já que as marcas e sinais apresentavam-se sob diversas formas e em locais bizarros, o que nos exigiu bastante atenção. Havia conchas em metal fixadas no pavimento, setas pintadas nas paredes e noutros objectos, placas, etc... tendo o track que havíamos gravado no GPS nos dado ali uma grande ajuda.

 
A muita chuva que se fazia sentir era um dos inimigos do dia, o outro era a imensa lama nos trilhos. Ao fim de poucos quilómetros o Renato já trazia um raio partido e o cepo da roda de trás a fazer barulho, mas resolveu-se com algum engenho. Numa povoação não muito afastada de Pamplona deparámos-nos com um monumento ao peregrino, feito em ferro, onde "apanhámos" um outro grupo de bicigrinos portugueses da zona norte do país.

 
Chegados a Zariquiegui, na companhia do outro grupo de bicicgrinos portugueses, tivemos de tomar uma das decisões mais difíceis de toda a nossa travessia, que ainda agora, ao escrever estas linhas, sinto enorme tristeza em não ter passado num dos locais com o maior ícone do Caminho de Santiago - falo do Monte del Perdón, no alto do qual se encontram as famosas figuras em ferro e que no momento desconhecia tal facto. Sentia-me tremendamente exausto e gelado até aos ossos! Tínhamos duas opções:
a) Seguir o caminho de terra batida completamente enlameado e de dificílima progressão, cujos kms seguintes teriam um enorme acumulado de subida e que nos poderia causar graves problemas mecânicos ou,
b) Aceitar o conselho dos comerciantes locais e fazer a ligação à próxima localidade, seguindo uma estrada rodoviária com pouco movimento, poupando material e recuperando o tempo perdido devido ao ritmo lento que levávamos por causa do péssimo piso.
Optámos pela hipótese b)!

 
 
Após kms em asfalto, que a mim pareceram durar uma eternidade, atingimos a antiga e bonita aldeia de Cirauqui (província de Navarra), onde atravessámos diversas pequenas pontes e pedalámos por ruas estreitas. Ainda debaixo de alguma chuva encontrámos um antigo e sobre-comprido edifício, com diversas arcadas e que, sob o mesmo se encontrava uma estreita passagem género túnel, onde sobre uma pequena mesa estava um carimbo para uso dos diversos peregrinos. Aproveitando a paragem para nos secarmos, descansámos um pouco e lubrificámos as transmissões. O Manel detetou ali na parede um bilhete deixado por peregrinos, sem data nem hora, onde apenas se lia em bom português: "Para Cláudia, já seguimos." Ficámos todos um pouco apreensivos e curiosos do que se trataria e quando teria ali sido deixado.

 
Na hora seguinte e logo saindo de Cirauqui, os quilómetros custaram a percorrer, sempre com muita chuva, a ligação à próxima aldeia foi quase toda ela por terra batida. Começámos por ter de fazer um desvio ao chegar a uma calçada e ponte romanas, cujo tabuleiro de barro e pedra estava desmoronado a meio. Para nos prevenirmos de acidentes, evitando também estragar material e ferimentos, passámos pelo interior do vale vazio evitando a ponte.

As pastilhas de travão estavam a gastar-se a olhos vistos. Muitos eram os barulhos na transmissão, já cheia de lama acumulada. O mesmo acontecia com os pneus, nas escoras e na suspensão. As luvas e restante vestuário de equipamento estavam completamente encharcados.


Um pouco à frente começámos a apanhar diversos grupos de peregrinos e bicigrinos, entre eles uma rapariga brasileira que seguia sozinha e que o Manel abordou, perguntando-lhe se o seu nome era Cláudia. Coincidência das coincidências, a moça respondeu que sim, ao que Manel perguntou se tinha visto o bilhete que lhe era dirigido na última aldeia que passara, cuja resposta foi um redondo não, clarificando que integrava um grupo de 3, entre eles o seu namorado, e que, no monte do "Alto do Perdão", se haviam simplesmente desagregado porque eles tinham menos dificuldade em lidar com a lama, não tendo esperado por ela (link do blogue da Cláucia com a crónica). O Manel transmitiu-lhe então o recado e, para não nos atrasarmos na nossa missão do dia, tivemos de continuar com o nosso ritmo.

 
 
As povoações começaram a ser mais espaçadas e era preciso parar para comer qualquer coisa, o que fizemos num pequeno café que era um misto de padaria/pastelaria/snack bar. Comemos umas pizzas, salgados e doces, empurrados por sumo e cerveja. As nossas bicicletas estacionadas à porta atraíram ali outros bicigrinos, como foi o caso do grupo de malta portuguesa do exército que já havíamos conhecido no dia anterior em Roncesvalles. Parou também ali a brasileira Cláudia. Confraternizámos um pouco e à medida que os grupos se iam despachando, voltavam ao trilho.

Após o almoço a chuva começou a ficar mais fraca, até que parou. O piso também alterou um pouco e ficou de melhor progressão. Rolava-se bem e estávamos a recuperar o tempo perdido durante a complicada manhã. Em Ayegui, junto ao Mosteiro de Irache, quase que nos passava despercebido mais um famoso local d'el camiño, a  fonte del vino, onde as Bodegas Irache mandaram construir e colocar à disposição dos peregrinos uma fonte com duas torneiras (água e vinho - é a pura verdade!). Sem dúvidas uma excelente forma de fazer publicidade. Cada um pode beber a quantidade que entender, mas é proibido abastecer-se para vender ou estragar. O local possui uma camera que capta 1 foto a cada 10 segundos, entre as 08H00 e as 20H00, a qual é apresentada em direto no site da empresa cujo link está acima. Quem for com tempo e se passar no horário de funcionamento, poderá aproveitar para visitar as instalações da adega, o que não foi o nosso caso.

 Inicialmente tínhamos previsto terminar a etapa em Logroño, mas devido à avançada hora do dia (18H00), contra-tempos provocados por problemas mecânicos devido, à lama, e ao enorme cansaço, decidimos pernoitar em Viana, cujos quilómetros que a antecederam foram terríveis pela dificuldade física que impuseram devido à altimetria e piso impraticável. Quando chegámos à cidade de Viana, a meros 10km de Logroño, não foi fácil encontrar onde dormir. Os albergues estavam todos ocupados, devido a ser fim de semana e a cidade estar em festa.

 
Batemos a diversas portas e decidimos que tínhamos de suplicar por um sítio onde ficar. Precisávamos de um bom banho, de lavar e secar as roupas, de lavar e afinar as bikes. A sorte viria a sorrir-nos no albergue Izar, onde a senhora responsável nos avisou que só iríamos encontrar vagas a 30km dali, provocando-nos um semblante carregado e triste sob as molhadas e enlameadas vestes. Propôs-nos que se fossemos até à estação de lavagem auto ali próximo tirar toda a lama que trazíamos, nos deixaria entrar para tomar banho e lavar as roupas, enquanto tentava encontrar uma solução para nós.

Depois de irmos até à lavagem auto da Cepsa, ali próxima, onde a pistola de água ora apontava para as bikes ora para nós, regressámos ao Izar, onde tomámos um quente e demorado banho. A solução encontrada foi cederem-nos a garagem do albergue, localizado num edifício ali próximo, que servia igualmente de armazém. O espaço era fabuloso e agradável. Tinha wc, era amplo e estava totalmente por nossa conta. Ali estavam também alguns colchões de beliches que podíamos utilizar deitando-os no chão. Aproveitámos desde logo para fazer revisões às bicicletas, tendo o Marco e o Manel sido os mecânicos de serviço. Substituíram-se pastilhas e alguns cabos, apertaram-se parafusos, afinaram-se transmissões e resolveu-se o problema do cepo do Renato, que foi desmontado e limpo o melhor que se pôde, recorrendo-nos dos nossos kits de ferramentas, já que era sábado e todas as lojas de bicicletas ali existentes estavam fechadas. Ficámos quase sem material suplente.

Era já tarde quando terminámos e seguimos para procurar jantar, daí que poucos eram os restaurantes que ainda estavam de portas abertas. Achámos que merecíamos uma recompensa por este dia de cão e optámos por um restaurante de categoria, o Almindrez, cujo ambiente era agradável mas a comida nada barata, mas enfim. Comemos de tudo um pouco e abusámos das quantidades. As bebidas escolhidas foram as colas e o vinho tinto. A conta ficou-nos em 25€ por cabeça e o total de gasto do dia ascendeu assim a uma despesa na ordem dos 41€. Voltámos para a garagem, desejosos de uma boa noite de sono e adormecemos entre conversas de resumos de um dia por demais atribulado.

RESUMO DA ETAPA #2 (Garmin connect)
Extensão: 87,49km | Velocidade média: 9,3km/h
Altimetria: 1.586m D+ | Variação de altitude: 336m/683m
Variação de temperatura: 12ºC / 18ºC
Tempo total: 09h33m19s | Tempo movimento: 06h54m15s


ETAPA #3 (09/06/2013):

Os despertadores tocaram às 07h00. Ouvimos chover durante toda a Santa noite e foi com esse mesmo barulho que acordámos. Abrimos a porta da garagem onde pernoitámos e confirmámos que íamos ter pela frente mais um dia complicado!

Enquanto eu, o Manel e o Marco terminámos de arrumar o material, o Renato foi ao Albergue buscar as nossas coisas que ficaram a secar... e até tivemos carrinho para o transporte. Depois disso fomos também nós todos de volta ao Albergue para tomar o pequeno-almoço e nos despedirmos dos simpáticos funcionários que tão generosos foram para connosco ao desenrascar-nos onde dormir.

Como não fomos precavidos com vestuário anti-chuva, arranjámos diversos sacos de lixo e fizemos-lhes 3 buracos para servirem de capa de chuva. Teria de funcionar! 
Pelo que havia chovido durante toda a noite, numa breve reunião de grupo decidimos que por ser domingo, para evitar avarias ou necessidade de substituir peças cujo stock já havíamos esgotado, perante trilhos que se adivinhavam lamacentos e de difícil progressão, ainda para mais nesta 3.ª etapa que era somente a mais extensa (137km) de entre as 9. Corajosamente lá nos metemos ao caminho.


Devido à muita chuva, poucas foram as oportunidades que tivemos de tirar fotos ou mesmo fazer filmagens. Seguir pelas estradas nacionais fora do trilho "oficial" revelou-se uma tarefa bastante complicada, se tomarmos em conta que qualquer erro paga-se caro, pois são quilómetros que se vão acumulando nas pernas. Em Logroño, a 1.ª grande cidade que encontrámos e que era inicialmente o local previsto passar a noite finda, foi uma carga de trabalhos para encontrarmos o rumo certo. Acabámos por decidir seguir atrás de 2 outros bicigrinos que, tal como nós, seguiam pela nacional para fugir à lama dos trilhos.

Seguimos sensivelmente 20km pela faixa de segurança da auto estrada 12. Carros da polícia chegaram a passar por nós, mas nada nos disseram. Esta foi a forma mais rápida (e única) que encontrámos para avançar. Foi também em autoestrada que tivemos o primeiro furo da nossa aventura, e o visado foi o Renato. Aproveitámos uma saída da AE12 e substituímos a camera do pneu traseiro, felizmente numa altura em que não chovia.

Nas imediações de Nájera, entre uma saída e retorno à AE12, foi a minha vez de furar o pneu traseiro. O pessoal seguia tão desapontado com o tempo e com ganas de chegar ao final da etapa, que nem se aperceberam que eu fiquei para trás com a minha avaria, mas depois lá deram pela minha falta e voltaram atrás para me ajudar. A altura não poderia ter sido pior: Chovia com uma intensidade brutal. Fui repentinamente abalado por uma tristeza e saudade profundas, ao dar por mim a pensar o que estava eu ali a fazer no meio de Espanha e num domingo, tendo deixado a minha família tão longe. Mas com o ânimo do pessoal lá levantei o moral.

 
Era quase meio-dia quando a chuva finalmente nos deu tréguas e pudemos apreciar as paisagens que nos rodeavam. Seguíamos em velocidade de cruzeiro e a fome já apertava.

Parámos para almoçar em Santo Domingo de la Calzada. O GPS marcava 57km percorridos. A cidade parecia bonita e merecia uma visita, mas tínhamos de nos despachar, pois ainda nos faltava mais do dobro do caminho para percorrer neste dia. Escolhemos um restaurante junto à estrada principal e refastelámos-nos com massa e coca colas. Aproveitámos também para colocar o primeiro selo do dia nos passaportes do peregrino. Três quartos de hora depois estávamos de novo a pedalar e a vontade era menos que nenhuma, pois os músculos estavam saturados e o tempo estava muito fresco, mas tínhamos de cumprir com o nosso objetivo.

 
  
De vez em quando lá víamos os trilhos do camino que seguiam paralelamente à estrada nacional que agora seguíamos. Ao km68 parámos na localidade de Redecilla del Camino, num posto de turismo, para colocar mais um selo e reunir informação. O sol mantinha-se.

 
 
A paragem seguinte foi na localidade de Tosantos, homónima de um nosso companheiro do pedal. Estávamos com 83km percorridos. Aproveitámos para atestar os bidons e comer qualquer coisa.

 
Depois de Tosantos seguiram-se mais 43km até alcançarmos a imponente cidade de Burgos, sempre seguindo por estrada nacional, com algum movimento rodoviário. O Renato seguia com dificuldades musculares quase desde início desta etapa. O facto de seguirmos fora do trilho, com ausência de cruzamento com outros peregrinos, fez-nos perder o espírito desta aventura. Os últimos 15km que nos levaram às portas de Burgos, fizemos em grande ritmo, a rondar os 30km/h, tendo mesmo feito competição com um espanhol que andava a treinar na sua btt e que ficou estupefacto pela nossa pujança puxando os trailers com quase 20kg, ainda mais depois de saber que já vínhamos com mais de 100km nas pernas.

 
 
Acabámos por travar conhecimento com aquele espanhol, que gentilmente nos veio a dar informações preciosas do local e tirou-nos algumas fotos. De novo no trilho oficial, percorremos algumas ruas de Burgos onde fomos abordados por diversos portugueses, que ao ver as nossas bandeiras vibravam de satisfação e acorriam a cumprimentar-nos. Infelizmente e mais uma vez, não encontrámos vagas nos albergues da cidade, mas uma rápida consulta no smarthphone do Manel revelou-nos um parque de campismo às portas da cidade, o que nos iria obrigar a voltar atrás 5km.

 
 

O parque de campismo que utilizámos foi o Fuentes Blancas. Para chegar até lá percorremos uma ecopista desenhada entre bonitos jardins e bosques, onde muitos habitantes locais passeavam e praticavam desporto. Terminámos com 133km. Foi obra! Surpreendentemente este camping possui pré-fabricados designados por albergues, que servem o mesmo efeito e estão reservados aos peregrinos. O interior é semelhante a uma camarata e as condições são aceitáveis. As casas de banho são ali próximas (fora do barraco). Partilharíamos a casa com outros bicigrinos de nacionalidades diversas.


Estávamos tão cansados e tal era a distância da cidade, que optámos por jantar no restaurante do parque, onde a comida era muito boa. No final do dia contabilizámos um gasto de 46€/pessoa.


Extensão: 132,08km | Velocidade média: 12,5km/h
Altimetria: 1.621m D+ | Variação de altitude: 369m/1.362m
Variação de temperatura: 12ºC / 26ºC
Tempo total: 10h33m38s | Tempo movimento: 08h02m23s


Após o pequeno-almoço tomado no camping onde havíamos pernoitado, retomámos o track do camiño. Hoje, feriado nacional do Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas, iríamos encontrar-nos por terras espanholas. A manhã apresentava-se cinzenta mas não chovia. Ao longo dos primeiros kms da saída de Burgos encontrámos dezenas de bicigrinos e peregrinos, entre eles este alegre casal de Australianos com o seu cão que muito feliz transportava uns alforges para ajudar os seus donos.

 
 
Os quilómetros iam sendo percorridos a bom ritmo. O terreno do trilho, nesta zona, é rijo e largo e atravessa enormes campos agrícolas. Com a coluna portátil de ligação bluetooth montada no meu atrelado, emitindo música animada, por onde passávamos causávamos curiosidade e alegria. Fomos alguns quilómetros à conversa com um grupo de bicigrinos espanhóis e também vimos o primeiro cavaleiro peregrino da nossa viagem.

 
 
 
 
Antes de Castrojeriz, localidade antecedida por um imponente e alto arco em pedra, do Mosteiro de San Antón, ainda tivemos a sorte e o privilégio de reparar numa pequena casinha junto do trilho, onde entrámos e ficámos "uoooouuuuuuu", com a decoração e tudo o mais, sendo a sua proprietária uma jovem muito simpática e afável, que se deixou fotografar connosco naquele sítio invulgar, cheio de originalidade. Este é mesmo um dos lugares que encontrei no Caminho e que nunca irei esquecer.

 
 
 
 
Logo após Castrojeriz apanhámos a subida mais dura do dia, com 18% de inclinação, no topo da qual conhecemos 2 peregrinos italianos, muitos alegres e simpáticos. Foi duro subir mas depois a vista em redor compensou tudo, pena foi no momento estar tudo um pouco enevoado. De seguida esperava-nos aquela que foi, talvez, a descida mais longa e rápida que encontrámos ao longo de toda a travessia. É um caminho em cimento que serve a passagem de peregrinos mas, acima de tudo, os acessos aos gigantescos campos agrícolas, que nesta altura estavam lindos de tanto verde.

 
 
Antes de atingirmos a povoação de Hontanas, encontrámos no meio do nada um casal que tinha montadas algumas mesas com fruta, bebidas diversas, bolos, sandes e outros, à disposição dos peregrinos a preços justos e convidativos. Em Hontanas, como a fome já apertava, decidimos almoçar no Albergue La Mochila, gerido pelo bem-disposto Jesús. Uns metros adiante reencontrámos dois espanhóis que tínhamos passado à saída de Burgos: Alfred e Isi, que mais tarde viriam a tornar-se nossos amigos e que nos acompanhariam na penúltima etapa. O cansaço começava-se a acumular e os tendões de Aquiles doíam-me para caramba, ao passo que o Manel passava mal com dores nos joelhos, tudo provocado pelo peso acrescido que trazíamos nos atrelados (15 a 20kg), por isso decidimos em conjunto que seria melhor ligarmos para o elemento que ficou de nos ir buscar a Finisterra, no final da travessia, adiantar-se uns dias e ir ter connosco a Astorga com a minha carrinha dotada de atrelado para recolher os nossos trailer's. 

 
 
 
 
 
 A parte da tarde foi das etapas mais monótonas que tivemos ao longo de toda a jornada, pois tivemos de percorrer cerca de 30km por entre campos agrícolas vazios e cruzando poucas povoações e pessoas. Valeu o piso ser bom, mas para não custar tanto passámos o tempo todo a olhar para a roda da frente ao invés do horizonte em frente, quase sempre igual e que custava a ultrapassar. Como estava quase a anoitecer e para desde logo garantir dormida, optámos por ficar no Albergue Los Templários, também no meio do nada mas à beira do camiño, cuja opção nos encurtou cerca de 12km ao previsto, mas a qualidade deste alojamento não nos defraudou. Aproveitámos as condições e lavámos roupa e a pendurámos no estendal ali existente, democraticamente dividido por todos os utentes. Até piscina havia, mas não usámos. No total gastámos neste dia, cada um, cerca de 38€.

Extensão: 114,48km | Velocidade média: 11,9km/h
Altimetria: 980m D+ | Variação de altitude: 764m/936m
Variação de temperatura: 10ºC / 25ºC
Tempo total: 09h36m30s | Tempo movimento: 08h04m35s


 
Após uma noite bem dormida, talvez a melhor até ali, pelo menos para mim e para o Manuel Maia, que após sorteio entre todos no grupo, ficámos com o melhor quarto disponível, tomámos um pequeno-almoço reforçado e mais pujante que o normal. A vontade de pedalar era muita, pois tínhamos de recuperar os quilómetros não percorridos no dia anterior e, também, porque no final da etapa de hoje nos esperava o nosso carro para recolher os trailers que rebocávamos com médias de 20kg de peso.

 
 
 
Rapidamente cruzámos Terradillos de Los Templários, onde era suposto ter-mos pernoitado, e a seguir Sahagún, já na província de León, cuja imponente praça de toiros e fachadas dos edifícios locais me impressionaram. Um pouco antes de San Nicolas del Real Camino, onde parámos para tomar o 2.º pequeno-almoço, ultrapassámos um grupo de peregrinos (apeados) portugueses, mais de 20 pessoas, que nos saudou com entusiasmo e alegria, ao verem as bandeiras portuguesas nos nossos trailers. Que momentos de glória ali vivemos enquanto os ultrapassávamos. Sentimentos indescritíveis! Em Mansilla de Las Mulas deparámos-nos com um mercado ao livre, onde parámos para merendar e descansar um pouco.


 
Os quilómetros seguintes levaram-nos através de diversas pequenas localidades até à metrópole León, capital da província com o mesmo nome, onde aproveitámos para almoçar. Aproveitei para sacar umas informações e uma foto com um camarada espanhol. Almoçámos numa esplanada de um pequeno restaurante sobre um largo passeio pedonal, onde as biclas perfilavam junto a nós, enquanto a cidade turbilhava de movimento.

 
 
 
Seguir as marcações para sair de León não foi tarefa fácil, tendo mesmo de recorrer aos GPS's com os tracks que havíamos carregado. Enfim seguimos, sempre com um sol maravilhoso e pouco calor. Cruzámos mais uma série de pequenos e interessantes povoados, até que às portas de Astorga, num rectão enorme paralelo à via rodoviária, em que eu e o Manuel já nos arrastávamos com imensas dores nos tendões e joelho, respetivamente, o grupo dividiu-se bastante, tendo nós dois ficado para últimos. Um dos momentos altos do dia foi a entrada na localidade de Hospital de Orbigo, que se fez através de uma extensa ponte de pedra... mais uma passagem inesquecível. Subitamente avistei a minha carrinha com um atrelado agarrado que eu não reconheci, junto a um pequeno café junto à estrada. O Rui Santos, o nosso 5.º elemento (apoio) estava ali à nossa espera e soltou uma enorme gargalhada quando nos viu.

 


 

O primeiro albergue que encontrámos (em Astorga) foi o Albergue Siervas de María, público e por isso barato, em frente de cuja entrada se encontrava uma imponente estátua de metal em homenagem ao peregrino. Os espanhóis souberam muito bem aproveitar esta rota religiosa e montar uma verdadeira rede turística em redor dela, dando emprego a muita gente, que gira em torno de centenas de milhares de peregrinos que anualmente cruzam estes caminhos. Adiante! Tivemos de engendrar um plano para conseguirmos incluir o + recente elemento (Rui Santos) como nosso colega neste albergue, mas o Rui não se revelou grande actor...  no entanto lá convencemos a rececionista de nacionalidade japonesa. Gastámos cerca de 29€ neste dia. Após arrumarmos as nossas coisas no albergue, ainda com os atrelados, fomos conhecer a cidade, a pé, e jantar, após o que regressámos para uma noite atribulada, pois o Rui ressonou a noite toda sem deixar dormir ninguém e uns peregrinos alemães já estavam pelos cabelos com ele, ameaçando colocá-lo fora das instalações.

Extensão: 114,24km | Velocidade média: 11,4km/h
Altimetria: 844m D+ | Variação de altitude: 791m/920m
Variação de temperatura: 12ºC / 32ºC
Tempo total: 10h03m20s | Tempo movimento: 07h39m56s


Não foram só as paisagens, os trilhos e as pessoas fantásticas que conhecemos nesta aventura! Vimos também formas diversas e originais de se percorrer o camiño, como foi o caso deste tandem de 3 lugares, transportando numa mesma montada 3 bicigrinos. Genial! 

 
 
Após um pequeno-almoço divertido e alongado, partimos para a 6.ª etapa, desta vez mais leves, pois deixámos os nossos trailers no atrelado da minha carrinha, guiada pelo Rui e com eles, a coluna de ligação bluetooth do Manel cuja música tanto alento já nos havia dado. Parecia que voávamos de tão leves... pudera, a arrastar menos 20kg cada um! Mesmo assim, o mal estava feito e as dores mantinham-se, por isso optámos por trocar de sapatos, eu e o Manuel, para vermos se minimizámos o mal, o que resultou... por algumas horas! É tudo muito fácil e bonito mas só depois, quando se faz o resumo e para quem lê esta reportagem, só que no momento foi muito duro e não havia como contornar o cansaço do corpo, mesmo com bastante força psicológica. Até à localidade de Rabanal del Camino foi sempre, sempre a subir com alguns singles, rodeados de lindíssimas paisagens de montanha, onde conheci um solitário peregrino Sul-Coreano de meia-idade com quem adorei falar. O Renato aproveitou para comprar um recuerdo (concha do peregrino). Após entrar no povoado e pela beleza do casario fiquei triste por não "descoberto" este local para pernoita do dia anterior, pois tem muita animação, fica numa zona sossegada e as pessoas são bastante amáveis. Aconselho a quem esteja a planear a sua travessia que pernoite aqui.

 

Encontrámos a povoação de Foncebádon, situada em plena montanha e quase toda ela em ruínas, mas ainda assim inesquecível. Continuámos a subir, a subir e a subir. O ex-libris seguinte foi a Cruz de Hierro (cruz de ferro), incontornável monumento religioso, onde todos os que por ali passam não resistem a uma foto. O ar fresco revelava a grande altitude a que nos encontrávamos (>1000m). Parámos para umas fotos, olhámos em redor e lançámos-nos na descida asfaltada que nos esperava a seguir.

 
 
A subida à montanha continuou. No horizonte do que nos rodeava avistávamos os cumes cobertos de neve da Sierra de Ancares. O sol brilhava mas parecia uma manhã de Inverno, pois estava um pouco fresco para a época. Seguidamente, em Manjarín, encontrámos um lugar de culto e bastante energia positiva. Um enorme aglomerado de peregrinos e bicigrinos estavam especados junto umas barracas com inúmeras bandeiras de países distintos, onde um homem discursava palavras religiosas. Foi esmagador este momento de tranquilidade.

 
 
  Seguiram-se mais alguns quilómetros de subida para depois voltarmos a descer por trilhos rápidos e técnicos, ultrapassando diversos peregrinos que se desviavam ao ouvir os nossos gritos de regozijo.

 


Os trilhos na segunda metade desta manhã foram tão deliciosos que prometemos cá voltar propositadamente no futuro para os repetirmos. Muitos singles e estradões, sempre a descer e passando por diversas povoações, sempre encontrando muitos peregrinos e bicigrinos. Em Riego de Ambrós aproveitámos para comer algo e colocar mais um carimbo no passaporte do peregrino. Seguimos e, logo após, numa zona em que o trilho é bastante rochoso arriscámos meter velocidade e o Manuel caiu, vindo a partir um pequeno osso da mão esquerda (o que só acabámos por saber após chegarmos a Portugal). O que é certo é que ele se queixou desde logo, mas lá continuámos, pois pensámos ser apenas um entorse.

 
 
 
Na lindíssima localidade de Molina Seca, que nos abre as portas no final do trilho de montanha através de uma bonita ponte de pedra, a qual nos remete para o interior da povoação de ruas estreitas e edifícios lindíssimos feitos em pedra, parámos para almoçar, onde nos encontrámos com o nosso carro de apoio. O almoço foi delicioso e algo demorado, pois perdemos algum tempo de volta da fechadura do atrelado que teimou em não abrir quando quisemos lá guardar algum material.

   
 
Continuámos a descer até chegarmos à majestosa cidade de Ponferrada, local de referência para muitos bicigrinos portugueses, alguns que aqui começam a sua travessia, para outros local de pernoita. Muito bonita, quer pelos seus edifícios, quer pelo rio que a atravessa onde na ponte principal temos uma vista magnífica para a montanha.  

 

 
 
Após diversos quilómetros junto às margens do rio Valcarce, por uma via reservada a peregrinos e separada da via rodoviária sob enormes árvores cuja sombra nos protegia do sol intenso, sempre a descer, tardava chegarmos a Las Herrerias de Valcarce, mas finalmente conseguimos. Os poucos albergues existentes nas redondezas e outras acomodações estavam lotados! Tivemos de optar por negociar com o proprietário do bonito Hotel Rural Casa do Ferreiro situado na base da serra, tendo nós ocupado todos os quartos existentes. Optámos também por jantar ali, uma vez que a aldeia é um pouco isolada. Com uma ajuda extra do grupo, conseguimos ainda reparar a fechadura do nosso atrelado. Os gastos neste dia foram dos mais elevados, ou o mais elevado de toda a aventura, tendo-nos ficado a rondar os 55€ por pessoa. Ao final do dia não dormi sem escrever a habitual crónica no notebook que transportei comigo.

Extensão: 97,65km | Velocidade média: 10,1km/h
Altimetria: 1.486m D+ | Variação de altitude: 475m/1.504m
Variação de temperatura: 16ºC / 42ºC
Tempo total: 09h47m49s | Tempo movimento: 05h53m00s



 
 
 
Levantámos cedo, como de costume e o dia amanheceu nada agradável Chovia e estava bastante nevoeiro. Este início de etapa levou-nos, em apenas 9,5km, desde os 688m até aos 1351m de altitude dos Ancares, num trilho que variou entre a terra lamacenta e a rocha escorregadia, sempre com bastante frio à mistura. Muitas das vezes não tivemos outra hipótese senão seguir com as bicicletas à mão. No topo esperava-nos a povoação do Cebreiro (ver camera web tempo real), carregada de boas vibrações e repleta de casas em xisto.

 
 
Finalmente o nevoeiro dissipou-se e o sol apareceu, primeiro envergonhado e depois forte. As paisagens revelam-se agora perante os nossos olhos de espanto face a tanta beleza e tanto verde. Pelo caminho era frequente cruzarmos-nos com gado bovino nas pastagens ou a caminho delas. O piso melhorou consideravelmente agora que iniciaríamos a descida.

 
 
 
A fomeca já apertava e decidimos parar num restaurante junto à principal quando cruzámos Sarria, após uma série de sinuosos e rápidos single tracks onde nos pusemos à prova com dois bicigrinos ingleses. O almoço foi farto e a paragem alongou-se demasiado face ao previsto, mas finalmente seguimos. Não resistimos a tirar umas fotos memoráveis junto de placas com referências a nomes de pessoas que muito estimamos e prezamos. Quanto ao caminho a seguir, sempre sem quaisquer enganos, pois marcas e setas é o que não falta.

 
 
 
Finalmente chegámos a Portomarín, onde eu já me arrastava com dores terríveis nos tendões de Aquiles. O grupo separou-se e cada um foi tentar arranjar instalações onde dormir, enquanto eu tentei encontrar um posto médico ou enfermaria onde me pudessem ajudar aliviando as dores, o que não consegui. Encontrámos vagas no Albergue Ferramenteiro, localizado à entrada de Protomarín, o qual é amplo e dispõe de excelentes condições, com enormes salas de beliches, casas de banho e duches, além de fornecer refeições. Após tudo arrumado, fizemos um passeio pela cidade e jantámos numa esplanada de um dos muitos restaurantes localizados na zona velha onde partilhámos companhia com os recentes amigos espanhóis Isi e Alfredo. No total gastámos neste dia cerca de 35€.

Extensão: 68,95km | Velocidade média: 7,6km/h
Altimetria: 1.646m D+ | Variação de altitude: 345m/1.351m
Variação de temperatura: 10ºC / 31ºC
Tempo total: 09h11m31s | Tempo movimento: 05h13m06s


 
 
 
 
Começámos a rolar com um excelente dia de sol e hoje na companhia dos nossos amigos Isi e Alfredo, que iriam terminar a sua travessia em Santiago. Os primeiros 13,5km foram de subida, mas depois foi sempre a rolar. Parámos já em zona de patamar para tomarmos o reforço e apreciar calmamente os verdejantes campos que nos rodeavam.

 
Continuámos a rolar por caminhos maioritariamente por esplendorosas florestas, quase sempre junto de linhas de água, onde por vezes atravessámos pequenos ribeiros. O Marco teve um percalço, partindo a manete de travão numa pequena queda, tendo conseguido comprar uma numa pequena loja em Melide, cidade conhecida pela existência de inúmeras pulperías - casas de repasto cujo prato principal é o polvo. Como já passava do meio dia, aproveitámos a paragem forçada para almoçar na pulpería A Garnacha, onde emborcámos umas cañas para empurrar o petisco local. Após a paragem demorada, voltámos a fazer-nos ao caminho, onde eu fiz de âncora, pois as dores nos tendões eram quase impossíveis de suportar, fazendo-me arrastar a um ritmo baixo sempre a reboque do grupo e que não me permitiu desfrutar dos trilhos como eu desejava e o mereciam.

 
 
 
 
 

Já com a metropolitana cidade de Santiago de Compostela à vista, chegámos ao Monte do Gozo, monte de onde já possível avistar a Catedral e de relevante importância para animosidade, onde aproveitámos para registar o momento. Dali a Santiago foi um pulinho, fazendo grande parte dos derradeiros quilómetros por asfalto e em zona urbana. Um casal proveniente de Andorra, que havíamos entretanto conhecido, juntou-se a nós para uma foto de grupo na praça central da capital religiosa, onde centenas de peregrinos regozijavam por cumprirem o seu destino. Seguimos depois para a Oficina do Peregrino, onde fomos oficializar o referente passaporte e obter o tão desejado Certificado personalizado, testemunho oficial da nossa travessia na condição de bicigrinos (+200km). A fila estendia-se desde a rua e escadas acima até ao secretariado onde se encontram diversos funcionários. A mão direita do Manuel estava um trambolho, resultado da sua queda dois antes e que, mais tarde (já em Portugal) viríamos a saber ter partido o escafóide.

 
 
Dada a hora tardia do dia, foi-nos extremamente difícil encontrar estadia para a nossa última noite, pois Santiago de Compostela está diariamente apinhada de peregrinos e turistas. Depois de muitas indicações e pesquisas online e outras tantas tentativas porta-a-porta, conseguimos vaga no Albergue Fin Del Camino, que se localiza na periferia e que nos obrigou a fazer mais alguns quilómetros para trás. Depois de alojados, permitimos-nos a uma visita a um centro comercial ali próximo, onde jantámos. Já de regresso ao albergue, tivemos a infelicidade de gramar com o barulho estridente de um grupo de bicigrinos oriundos de Penafiel e que após 3 dias a pedalar terminavam ali a aventura, à semelhança dos restantes, descurando o descanso dos demais, ruído só terminado com a intervenção e aviso do zelador de serviço. No final do dia sumámos um gasto de 27€.

Extensão: 92,27km | Velocidade média: 8,8km/h
Altimetria: 1.783m D+ | Variação de altitude: 247m/725m
Variação de temperatura: 12ºC / 30ºC
Tempo total: 10h41m23s | Tempo movimento: 06h36m09s


 
 
O último dia da nossa aventura ciclistíca amanheceu solarengo, porém bastante frio. Como estávamos "fora de rota" relativamente aos nossos gps's, baralhámos-nos com os track's e saímos para sul ao invés de norte, o que nos obrigou a percorrer alguns quilómetros a mais até regressarmos ao camino, mas finalmente lá o conseguimos e desde logo no trilho começámos a encontrar peregrinos, mas muitos mais bicigrinos, ao contrário do que prevíamos, uma vez que esta etapa extra não é muito popular entre a maioria dos aventureiros. O percurso continuava excelentemente bem marcado, como o havia sido até Santiago. A saída da cidade faz-se pelo interior de uma bonita floresta densa, com muitos single track's para depois passar por diversos trechos em asfalto, cruzando inúmeras povoações. Com 53km percorridos e depois de uma anterior paragem para reforço, almoçámos em Olveiroa, situada logo a seguir à Ponte Oliveira, para um repasto de batata cozida com enchidos - prato tradicional local - não sendo difícil compreender os nossos interlocutores, pois o falajar galego é praticamente português.

 
 
 
 
 
A última parte da nossa última etapa desenrolou-se em consecutivos sobe e desces, em terreno com bastante pedra e ultrapassando diversas linhas de água até que atingimos o Alto da Cheda, onde nos foi possível avistar o mar pela primeira vez nesta nossa travessia. Dali descemos abruptamente até ao mar, passando por diversas povoações costeiras, sempre convictos estarmos próximos do final, mas os quilómetros iam-se passando e parecia não ter fim a nossa jornada, pelo que aproveitámos para atestar os bidons numa fonte junto do trilho.

 
 
 
 
Finalmente atingimos a nossa meta, o Cabo Finisterra, cujo local está minado de objetos e monumentos simbólicos de onde sobressai o marco Km0, a lembrar que tudo começa (ou acaba) aqui, este que foi o local por nós definido para terminarmos pelo simbolismo transmitido pelo mar que nos impede de ir mais além. Após a compra de alguns recuerdos e já com a nossa carrinha e atrelado junto de nós, rumámos até à próxima praia de Cee onde celebrámos com um mergulho no mar, tomando depois banho nos chuveiros. Seguiu-se uma viagem de 600km de carro até casa, durante a qual fizemos uma apologia desta nossa grande epopeia pessoal de um grupo de ciclistas amadores, mas com uma grande vontade de cumprir promessas e sonhos comuns que só alguns têm a vontade e coragem de fazer acontecer.

Para terem uma ideia mais objetiva desta nossa travessia e poderem associar os locais e trilhos, não deixem de visionar o resumo em vídeo desta doideira de 4 amigos bttistas.

Extensão: 92,34km | Velocidade média: 10,6km/h
Altimetria: 1.774m D+ | Variação de altitude: 2m/429m
Variação de temperatura: 16ºC / 36ºC
Tempo total: 08h34m20s | Tempo movimento: 05h57m53s


RESUMO FINAL
9 dias/9 etapas | 867,21km percorridos | 13.499 metros de acumulado positivo | 61h43m a pedalar.




Bikers: João Valério, Manuel Maia, Marco Lopes e Renato Valério
Carro de apoio 1: Filipe Rodrigues (condutor) e Rita Calado (tripulante), transportaram-nos até Saint-Jean-Pied-de-Port
Carro de apoio 2: Rui Santos (condutor)
Dorsais: João Valério (autor), Jorge Rabaça (design), Laser Site (fabricação)
Logística: João Valério (com a colaboração de João Marinho)
Media partner: Revista "O Praticante";
Colaboradores: Vestuário e Fardamentos "O Polvo", bicicletas "Jorbi", loja e oficina de bicicletas "Profbike", loja de produtos naturais e alimentação desportiva "P.A.V.A. Natura".

DEDICATÓRIA
Dedico esta reportagem e aventura à memória do João Marinho, desportista e aventureiro português multifacetado que faleceu em Julho de 2015 em Espanha, que nos deu indicações valiosas baseadas na sua experiência pessoal, que também percorreu esta rota religiosa em bicicleta em 2004.

Créditos à reportagem
Texto: João Valério
Fotos:  João Valério, Manuel Maia, Marco Lopes, Renato Valério, Rita Calado, Filipe Rodrigues, Rui Santos
Filmagens: João Valério, Marco Lopes
Filme: Zona 55

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