quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Participação da equipa (Travessia da Floresta Negra)

Representação da equipa a cargo de:
580km - João Valério

Passados 6 meses sob a tomada da decisão final em reunião de jantar de natal deste grupo de aventureiros, onde decidimos aceitar o convite do também elemento do grupo, Pedro Loureiro (agora Presidente do Centro Português de Sindelfingen), em irmos fazer uma travessia à Floresta Negra, apesar dos últimos 2 meses haverem sido de incertezas (percursos, participantes, dormidas, etc...), o grupo inicial de 8 interessados ficou reduzido a 5, mas a tal já estamos habituados e tudo foi ultrapassado. Num repente já estávamos no avião a caminho da Alemanha. O que importa é traçar objetivos e mantermo-nos fixados em cumpri-los.

Iríamos passar os próximos 9 dias na região de  Baden-Württemberg, sul da Alemanha, considerada a zona rural do país, onde se localiza a mundialmente famosa floresta negra, que ocupa quase toda esta área do país, para cumprirmos 600km em bicicleta de montanha.

À nossa chegada ao aeroporto de Estugarda (Alemanha) esperava-nos o nosso anfitrião Pedro, com o atrelado montado no carro onde iríamos carregar as nossas 3 bicicletas vindas de Portugal, ainda embaladas nos respetivos sacos de viagem, para fazermos a curta viagem de 25km entre Estugarda e Maïchingen - Sindelfingen, onde montámos o nosso "Quartel General" para aí pernoitarmos a nossa 1.ª noite, o que fizemos após havermos ido ao centro de Sindelfingen jantar e assistir ao jogo do Mundial da Rússia onde Portugal defrontou o Irão, acabando empatados a 1 golo.


26 de Junho de 2018 - Etapa #1: Pforzheim/Dornstetten (81,57km c/ 1.425m D+)
Levantámo-nos às 07h30 e antes de dar-mos início à nossa 1.ª etapa ainda tínhamos de desembalar e montar as nossas 3 bicicletas, para depois fazer uma viagem de carro de 42km entre Sindelfingen e Pforzheim, onde nos juntaríamos (João, Renato e Anacleto) ao Carlos Navalho (à semelhança do Anacleto também estreante elemento no grupo, a residir na Alemanha).
  
Eram quase 11 da manhã quando o Carlos se juntou a nós, em Pforzheim, estando eu ainda a braços com a montagem de 1 câmara de ar na roda da frente, cujo pneu havia vazado e não sustinha ar. Mas depois de algumas contrariedades e atrasos, finalmente arrancámos com a certeza de que o dia ia ser longo, pois tínhamos pela frente um pouco mais de 80km, valendo-nos a certeza de um percurso com baixa altimetria, bom piso e a mais-valia do sol se pôr só após as 22h00.

Rapidamente saímos da cidade utilizando uma das diversas ecopistas asfaltadas (e marcadas), que por ali são muitas, à semelhança do resto da Alemanha, tal como nos informaram. Existem muitas placas informativas de direções, mas é conveniente levar o track já decidido no gps para não ter surpresas nem seguir numa direção errada. Apesar do percurso ser um pouco monótono devido à ausência de dificuldade, a envolvência da majestosa floresta negra e as diversas pontes em madeira que nos permitiam progredir, ora de um lado, ora do outro da margem do rio Nagold, misturado com a oportunidade em nos ir-mos conhecendo melhor uns aos outros, uma vez que neste grupo de 4 metade eram elementos estreantes no grupo, deram um brilho especial a esta etapa. Com bastante frequência cruzámo-nos com localidades.

O tempo apresentou-se solarengo com uma temperatura a rondar os 25 graus centígrados ao longo de todo o dia. O percurso da 1.ª etapa foi maioritariamente junto ao já referido Rio Nagold, que nos fez companhia até ao km55, em cuja cidade com o mesmo nome deste rio aproveitámos para almoçar, tendo nós optado por um restaurante turco (existem muitos na Alemanha), onde comemos umas pratadas de kebab a um preço bem simpático.

Com os estômagos compostos e sem sinais de dificuldades físicas ou técnicas, rapidamente cumprimos os restantes 30km. O piso foi maioritariamente cimentado/asfalto, com algumas zonas de terra batida e poucas zonas de verdadeiro btt. Relativamente a abastecimentos de água, fontes é coisa que não se encontra com facilidade por estas bandas, o que confirmámos ao longo de toda a nossa aventura, por isso havia que atestar o cantil sempre que possível, mas prestando bastante atenção à água de compra, pois na Alemanha têm muito o hábito de beber água com gás, existindo à venda de 1,5L confundindo-se as garrafas.

A parte exigente situou-se nos 15km finais, em que tivemos de ultrapassar caminhos de floresta, sempre em asfalto, com duas subidas um pouco inclinadas. Apesar do gps informar uma altimetria total de 1.425D+, na realidade pareceu que a informação estava errada, pois não notámos isso, talvez pelo facto de irmos sempre gradualmente subindo desde o início.         

Eram sensivelmente 18h00 quando chegámos ao final da etapa, localizada em Dornstetten. A extensão total realizada foi a prevista. Hoje, o nosso anfitrião seria o Carlos Navalho - elemento integrante do grupo que tem o privilégio de residir todo o ano em pleno "coração" da floresta negra. O menu foi massa, após o que se seguiu uma longa e prazenteira caminhada pela pequena cidade, para desentorpecer as pernas, tendo como guia o nosso anfitrião.

27 de Junho de 2018 - Etapa #2: Dornstetten/Bad Dürrheim (93,24km c/ 1.355m D+)

O relógio voltou a tocar às 07h30, tal como no dia anterior. O Renato e o Anacleto continuavam deitados sobre os colchões que nos serviram de cama. O tempo mantinha-se solarengo e fresco. Após o pequeno-almoço, oferecido pelo Carlos em sua casa, metemos-mos ao caminho. Logo aos primeiros quilómetros tivemos umas incursões por desafiadores caminhos de terra dentro da floresta. Até o Carlos, conhecedor da zona, ficou surpreendido com esta ligação do meu track.

Esta etapa foi um pouco diferente da anterior. Apesar do piso continuar a ser maioritariamente asfaltado, as paisagens que nos rodeavam eram de extensos campos agrícolas e havia muitas árvores de frutos a pender para o caminho, em especial cerejeiras de diversas qualidades... e acho que provei de todas.
           
Surpreendentemente e com alguma frequência, fomos encontrando carrinhos ou bancadas de madeira com frutas e legumes à venda, mas sem os respetivos vendedores por perto, em vez disso, caixinhas para os compradores depositarem os valores correspondentes às quantidades que pretendiam levar e de acordo com os preços tabelados, o que, segundo apurámos, é hábito ser cumprido pelos compradores.

Pela primeira vez tivemos de fazer uma pequena alteração ao track previsto, uma vez que devido a obras, o trilho inicialmente antevisto estava cortado, nada que não resolvêssemos com eficácia e rapidez num pequeno desvio de 100mt.

A paragem para almoço foi em Rotweill, ao km67, numa pizzaria gerida por turcos e cujos preços eram bastante aceitáveis. O calor já apertava um pouco e soube bem aquela paragem onde me esforcei para comer a cuvete de pasta e a salada, bem regadas, pois claro!

Após o almoço fomos sempre a apreciar uma altíssima torre avistada ao longe, que nunca conseguimos perceber onde era, mas que nos ia guiando. Antes de terminarmos passámos junto de um aeródromo e voltámos a pedalar junto do leito de uma linha de água, o Rio Neckar.

O final da etapa foi no PKW Parkplatz Solemar, um parque de campismo dedicado exclusivamente a caravanas e autocaravanas, onde se nos juntaram o Pedro Loureiro e o João Ferreira com a autocaravana, que a partir dali nos iriam dar apoio logístico. Tivemos aqui um duplo azar.
1º - Este parque não possui balneários nem casas de banho próprias, porém a escassas centenas de metros localiza-se um complexo de piscinas (pagamento de 12,50€/3 horas) que tem um acordo com o parque (2,50€/banho).
2º - Infelizmente, a Alemanha estava a jogar o jogo decisivo no Mundial da Rússia e, o pequeno Secretariado do parque encerrou, deixando-nos entregues à nossa sorte. O resultado foi que tivemos de tomar banho de água gelada diretamente do abastecimento para autocaravanas (o que é proibido ali e muitos nos olhavam com olhos de desaprovação).

Para o jantar, o João Ferreira cozinhou uma carne no tacho que todos consideraram estar deliciosa. O cozinheiro ficou de imediato aprovado!

28 de Junho de 2018 - Etapa #3: Bad Dürrheim/Allensbach (85,55km c/ 616m D+)
Levantámos-mos cedo, como habitualmente e após despedirmo-nos do pessoal de apoio da autocaravana, fizemos-mos ao caminho. Mais uma manhã fresca e com o sol a brilhar eram um bom presságio para um ótimo dia de btt. Novamente nos vimos a pedalar por entre extensos campos agrícolas em estreitas estradas asfaltadas, o que nos permitiu manter uma boa média horária.

 
Após pedalarmos os primeiros 10km do dia chegámos à cidade de Donaueschingen, onde se encontra oficialmente localizada a nascente do Rio Danúbio – o 2.º maior rio da Europa em extensão com 2.860km, onde aproveitámos para nos demorarmos um pouco a apreciar o local. A saída da cidade levou-nos a passar pelo interior do enorme e lindíssimo parque local.

 
O caminho continuou como até então, cruzando pequenas localidades, ora em estradas asfaltadas, ora por caminhos rurais em terra batida, muitas vezes dentro de floresta e outras campos semeados. Ao km42, já com o ratinho na barriga, aproveitámos a entrada na pequena cidade de Tengen para procurar onde almoçar, mas não foi fácil, porque os poucos restaurantes ali existentes estavam fechados, o que nos levou a fazermos uns quilómetros e a sairmos alguns quilómetros do track (alteração já feita ao percurso desta etapa aqui publicado), tendo a solução sido a ida a um supermercado onde comprámos as nossas refeições. A presença no grupo de um elemento que fala fluentemente alemão foi sem dúvidas uma mais-valia, não só nesta situação como em muitas outras que se seguiram.

Enquanto íamos almoçando o tempo foi-se alterando radicalmente. O céu estava a ficar cada vez mais escuro e adivinhava-se chuva para breve, pois as nuvens negras encontravam-se na direção para onde pretendíamos seguir. Antes de nos voltarmos a fazer ao caminho, aproveitámos para mudar as baterias dos gps’s e da GoPro e apressámos-mos para ver se nos safávamos à chuva, o que conseguimos, pois apenas apanhámos uns pinguinhos nos últimos 5km da etapa.

 
Ao aproximarmo-nos de Riedheim e a apenas 35km da nossa meta diária e  margens do Lago Contança, tivemos a oportunidade de vermos, ao longe, a imponente imagem das ruínas do Castelo de Hohentwiel, o qual foi construído em 914dc na cratera aberta pelo vulcão extinto, com o mesmo nome. Vimo-lo mas, infelizmente, não o visitámos, uma vez que o track não estava previsto para a nossa passagem por lá, cujo acesso é bem complicado e fisicamente duro e demorado.
           
Chegámos finalmente a outro grande objetivo da nossa aventura, refiro-me ao Lago de Constança (ou Bodensee, em alemão). Este enorme lago, que é o 3.º maior da Europa Central, é alimentado pelo Rio Reno, que o atravessa, banha 3 países (Alemanha, Áustria e Suiça), possui uma área de 536m2 e aproximadamente 63km de extensão, estando localizado entre a Floresta Negra e os Alpes.

Ao chegarmos ao Campingplatz Himmelreich, um dos diversos ali existentes, já os nossos colegas da autocaravana a tinham estacionado e nos esperavam para começarmos a grelhar o jantar, à boa moda campista. Este parque de campismo pareceu-me estar vocacionado para autocaravanas. Tem excelentes condições e bons serviços, entre eles máquinas para lavar e secar roupa, supermercado, restaurante e bar, balneários, além de estar localizado mesmo nas margens do lago, onde podemos entrar diretamente para um mergulho.

Depois de jantar e aproveitando os 2 bilhetes de comboio/por campista que este parque de campismo disponibiliza aos utentes, fomos passear até à cidade de Konstanz, localizada a uns meros 10km dali, porém tivemos de andar bastante a pé até à estação (ida e volta), mas a noite não estava para passeios porque além de por vezes chover, também a temperatura havia baixado.

29 de Junho de 2018 - Etapa #4: Allensbach/Hunterhochsteg (89,14km c/ 540m D+)
O dia amanheceu cinzento, novamente sob a ameaça de chuva, por isso saímos já equipados a rigor. Logo à saída do parque de campismo passa a ciclovia asfaltada. Nesta etapa o grupo aumentou para 5 elementos, pois o Pedro Loureiro trazia a sua Cannondale F29 na autocaravana e decidira juntar-se a nós, delegando ao “cozinheiro” João Ferreira a função acrescida de motorista.

Tal como projetado, esta etapa da nossa aventura dava continuidade a prosseguirmos junto às margens do Bodensee, o que se iria manter até meio da 6.ª etapa, altura em que retornaríamos ao interior da Floresta Negra. Passados 10km chegámos à enorme cidade de Konstanz, onde a ciclovia nos fez entrar numa ponte sobre o Rio Reno, de passagem exclusiva a peões e bicicletas. O movimento era enorme, especialmente o de bicicletas, havendo de todos os tipos, modelos e estilos, tanto a circular como estacionadas em enormes parques exclusivos a este tipo de veículos.

Sensivelmente ao km12,5 quase despercebidamente e sempre a pedalar, cruzámos a fronteira para a Suíça onde, não fosse a presença de alguns polícias, não tínhamos notado que saíamos de um país e entrávamos noutro. Ninguém nos mandou parar, nem para verificar identificações, revistar ou questionar sobre o nosso destino, seguimos livremente e só parámos mesmo para congelar o momento com algumas fotos e filmagens do local.
            
Os nossos smartphones começaram quase em uníssono a emitir sinais sonoros, a avisar/informar dos preços cobrados em serviços de comunicações móveis e roaming. De salientar que a Suíça não é parte integrante da Comunidade Europeia, pelo que a moeda local é o Franco Suíço. Bandeiras suíças aqui e ali iam-nos lembrando que estávamos noutro país que não a Alemanha.


A minha intenção em desenhar um track sempre o mais próximo do lago, levou a que nos aproximássemos e afastássemos regularmente das margens, apesar de nunca exceder mais de 200/300m desde a água. Isto também resultou que, de vez em quando, percorrêssemos algumas dezenas de metros em terra batida e tovenã.


 
Os trilhos e vias existentes junto ao Lago Constança estão todos eles marcados, sendo que é preciso ter atenção porque alguns deles proíbem a circulação a bicicletas e, todos eles, proíbem a circulação a veículos motorizados, sendo que a sua largura média ronda os 2m. Nestes trilhos constantemente nos cruzamos com extensos grupos de ciclistas, pessoas a fazer jogging outras a andar de skate.
           
 Além das margens do Bodensee, também a linha do comboio ali existente acompanhou o nosso track, o que deu um brilho ainda mais especial a esta etapa já por si só bela, com passagens idílicas junto de vinhas, marinas (portos de recreio), casas e quintas de sonho, e localidades pitorescas que nos foram obrigando a constantes paragens para apreciar, fotografar e filmar.

Na cidade de Romanshorn aproveitámos para comprar uns ímanes e outros recuerdos da Suíça, onde para pagarmos em Euros só utilizando cartão de crédito porque, caso pagássemos em dinheiro, o que também era possível, os comerciantes cobravam em Euros os preços tabelados em Francos Suíços, ou seja, sendo o Euro uma moeda mais valiosa, ficaríamos a perder dinheiro (1€ = 1,14CHF).
            
Com alguma frequência fomos vendo bandeiras e/ou símbolos portugueses, fossem em casas ou carros. Também é verdade que ouvimos pessoas a falar a língua de Camões. O céu permaneceu cinzento e havia uma brisa leve e fresca, mas o certo é que acabou por não chover, tendo ao final da manhã o sol começado a brilhar, levando-nos a guardar as capas de chuva. No céu fomos vendo com alguma frequência enormes dirigíveis (ou Zeppelin’s), que fazem passeios turísticos sobre todo o lago.

Ao km63 desta nossa 4.ª etapa voltámos a cruzar fronteiras. Desta feita saímos da Suíça, onde percorremos 51km, para entrar na Áustria, o que aconteceu após passarmos uma ponte sobre o antigo leito do Rio Reno, agora designado por Alter Rhein (em alemão, Antigo Reno), desviado por mão humana nos finais do século XIX. Íamos num ritmo tão rápido que tivemos de abrandar para almoçar, o que fizemos ao km53 num dos vários restaurantes da marina de Rorschach.

Após o almoço cruzámos e pedalámos junto a canais, em pisos bastante diversificados, chegando mesmo a ter de andar com as bicicletas à mão numa surpreendente passagem pelo interior de um bosque bastante fechado de vegetação, por ocasiões com rochedos e árvores a bloquear o trilho, em por vezes nem era visível valendo-nos o track do gps.

 
O percurso passou por inúmeros jardins e quase sempre junto às margens do lago, sempre com muito movimento de pessoas, percebendo-se que o Bodensee é uma enorme atração não só para os habitantes locais, mas também para aqueles que residem a algumas centenas de quilómetros e vêm passar férias ou somente o fim de semana. Foi assim, num repente, que chegámos ao Park Camping am See, situado imediatamente após a fronteira Áustria/Alemanha, estando nós de volta ao país de onde havíamos saído no início desta etapa.

O João Ferreira havia conseguido, a muito custo, um espaço para a nossa autocaravana, por isso após organizarmos as nossas coisas aproveitámos para, pela primeira vez desde que seguíamos junto ao lago, mergulhar e dar umas braçadas nas suas águas límpidas e refrescantes, aproveitando o solarengo final de dia.
           

30 de Junho de 2018 - Etapa #5: Hunterhochsteg/Staad (58,62km (4,4km navio + 54,2km bicicleta) c/ 390m D+)
Mais um bonito dia com um sol radioso e paisagens inesquecíveis. O Pedro voltou a integrar o grupo em mais uma etapa. Com apenas 4km percorridos chegámos à lindíssima e antiga cidade de Lindau, cuja maior extensão se localiza numa pequena ilha sobre comprida, afastada apenas 150m de terra firme e unida por 2 pontes, tendo nós utilizado ambas, sendo que uma é aberta a todo o tipo de veículos e outra apenas ferroviária/peões/velocípedes.

Após uma demorada estada na ilha, principalmente porque há zonas pedonais onde é obrigatório desmontar, regressámos a terra para continuarmos a ciclovia junto do lago, onde encontrámos diversos miradouros e muitas casinhas assentes sobre estacas de madeira sobre a água.

Numa paragem mais demorada nos jardins de Wasserburg e uma vez que neste dia a seleção de futebol portuguesa iria jogar o derradeiro jogo da fase de grupos e contra Marrocos, decidimos encurtar esta etapa, que era suposto ter cerca de 80km e terminar em Überlingen, optando por apanhar a ligação de barco um pouco antes, em Meersburg, fazendo a ligação para Staad e aí ficar no parque de campismo para depois podermos ir assistir ao jogo a Konstanz.

Continuámos a pedalar mas desta vez cometemos diversas infrações, pois fizemos algumas passagens por zonas exclusivas a peões, por sorte ninguém nos abordou, mas os peões olhavam-nos com desapreço. Por outro lado tivemos de cruzar diversas cancelas e outros tipos de infraestruturas metálicas que nos deram algum trabalho a ultrapassar, não só físico como também mental (fazer contas de cabeça para perceber como iria a bicicleta lá passar). No entanto foi uma passagem interessante, pois conhecemos locais bastante bonitos que de outra forma não teríamos visto.

Uma vez que a etapa seria bastante curta face às restantes, com pouco mais de 50km, colocámos um ritmo mais lento para melhor apreciar as paisagens e fizemos um almoço mais demorado junto a uma bonita doca privada com escola de vela. Rapidamente chegámos a Meersburg, onde apanhámos o barco para Staad, cruzando em toda a largura o grande lago, numa travessia semelhante à de Setúbal para Tróia. Após sairmos do navio, percorremos escassas centenas de metros até entrarmos no parque de campismo DKV Campingplatz,  onde a autocaravana já nos esperava.

Terminámos a etapa tão cedo que ainda tivemos oportunidade de ir banhos ao lago, ali a escassos metros, antes de prepararmos o jantar, após o qual percorremos algumas centenas de metros para apanharmos um autocarro até Konstanz, onde fomos ver Portugal ser derrotado e impedido de seguir para os oitavos de final perante o gáudio da imensa plateia de alemães.


01 de Julho de 2018 - Etapa #6: Staad/Gammertingen (155,91km (46km comboio + 110km bicicleta) c/ 1,833m D+)
Após uma rápida reunião durante o pequeno-almoço, concluímos que teríamos de seguir de bicicleta até Konstanz, onde deveríamos apanhar um comboio dali até Radolfzell e depois outro para fazer a ligação até Überlingen, cidade onde estava inicialmente previsto havermos terminado a etapa anterior e que se situa na outra margem do lago. Seguimos este plano e, com a importantíssima ajuda do Carlos nas máquinas bilheteiras, lá conseguimos ter sucesso na aquisição dos bilhetes e ligações certas, pois teríamos de regressar à outra margem e fazê-lo por via férrea em redor do lago, desta vez pela zona norte.

Voltando um pouco atrás… os primeiros quilómetros de bicicleta entre Staad e Konstanz foram algo atribulados, pois não tínhamos o track e tivemos de nos orientar pelo mapa que aparecia no gps. O Pedro já não nos acompanhou de bicicleta nesta etapa e substituiu definitivamente o João Ferreira que, por razões profissionais, regressou a casa (numa cidade próxima). Esta penúltima aumentou exponencialmente para lá dos 2 dígitos, face às alterações de última hora ao plano inicialmente traçado, mas a briga com o gps manteve-se algumas horas!…

Também devido às recentes alterações dos tracks, ao invés de sairmos logo na estação de Ludwigshafen, onde poderíamos dali a escassos quilómetros retomar o track planeado e carregado nos gps’s, saímos na estação de Überlingen. Para ajudar à festa, ao sairmos desta última estação e como eu era o único que tinha o track original carregado, o qual passava ali mesmo, baralhei-me com as direções e fiz-nos seguir 10km em sentido contrário ao do track, chegando quase e de novo até Meersburg. Sem stresses de nenhum dos elementos do grupo e com a maior calma e convicção de que teríamos de chegar à meta planeada para esta etapa, voltámos para trás como se nada se nenhum erro tivesse ocorrido, até porque as paisagens eram igualmente lindíssimas, se comparadas com os dias anteriores.
           
Volvidos 28km a pedalar estávamos de regresso e novamente de passagem por Ludwigshafen, onde nos despedimos pela derradeira vez do lago junto ao qual havíamos pedalado ao longo dos últimos 3 dias. Com todos os enganos e alterações operadas, uma coisa ficou certa: conseguíramos ladear totalmente o Bodensee em toda a sua extensão, experimentando todo o tipo de transportes.

Após abandonarmos as margens do lago, começámos de imediato a embrenhar-nos na floresta e logo com uma inclinada subida de aproximadamente 7km de extensão, maioritariamente em asfalto. Ingenuamente e devido a não ser ainda meio-dia quando cruzámos a última povoação, localizada junto ao lago, fizemos-mos ao caminho acreditando que brevemente encontraríamos onde almoçar porém, tal revelou-se complicado, pois além de ser domingo, pela frente só existiam pequenas aldeias rurais e extensas explorações agrícolas.

Felizmente e finalmente em Zoznegg, marcava o relógio 14h00 e o gps 95km, após cruzarmos diversas aldeias onde não avistámos viv’alma à semelhança desta povoação, decidimos unanime e derradeiramente ir bater a umas portas com o nosso tradutor Carlos à frente, para tentar descobrir um qualquer sítio onde almoçar ou comprar comida. Tivemos a sorte de encontrar um local de encontro de motards, que se encontra vazio e fora de funcionamento, onde o proprietário de imediato se propôs a resolver a situação, apoiado pela esposa, apresentando-nos um almoço que, não sei se foi pela fome, se pelo desespero, pela simpatia dos visados ou tão-somente pela inquestionável qualidade e originalidade, nos pareceu a refeição mais fantástica que havíamos tido no total de todos os dias das etapas já realizadas até então.

 
Após um almoço que considerei mais demorado que o normal, pois o dia já ia longo e ainda nos faltavam cumprir mais 60km, voltámos ao pedal para continuarmos a subir até que, subitamente e no meio de nenhures, encontrámos um acampamento índio… perdão, uma réplica de um acampamento índio que nada mais era que um género de parque de campismo onde tudo nos transporta ao western, desde as enormes tendas dos índios ao saloon e cavalariças dos cowboys, onde aproveitámos para tirar umas fotos.

 
 
A partir do km119 regressámos a povoações mais urbanas e cidades maiores. Em Inzigkofen voltámos a ter uma subida digna do nome e 3km depois, em Sigmarinen, observámos o majestoso castelo local situado sobranceiro ao rio. Mais adiante, em Veringendorf, o track levou-nos a passar diretamente pelo interior de uma festa popular local, bem animada por sinal, com banda filarmónica a tocar e tudo mais, onde aproveitámos para lanchar e beber umas cervejas. Adiante, já em Hettingen, percorremos ruas e pontes de beleza ímpar.


 
Finalmente chegámos ao final da etapa, situada num parque de merendas que ladeia a estrada às portas da cidade de Gammertingen, onde o Pedro nos esperava. Algumas famílias turcas encontravam-se ali a passar a tarde de domingo, que já ia bem avançada, pelo que em menos de 1 hora ficámos só nós no enorme espaço verde atravessado por uma pequena ribeira dotada de águas gélidas e límpidas, que nos roubou alguma atenção. A autocaravana ali ficou parqueada e sozinha, junto de uma circular e original construção dotada de sanita e lavatório, que serve de apoio aos viajantes utentes da estrada principal ali junto.

A distância à cidade de cerca de 1km, levou-nos a ter de percorrer esse caminho de volta com recurso às bicicletas. Mais uma vez optámos por um restaurante de turcos, onde os pratos mais pedidos foram as massas e os kebab’s, tudo a um preço bem simpático e quase incrédulo, não já a nossa experiência. Após o jantar de regresso à autocaravana, envoltos numa calmaria proporcionada pela localização isolada e bosques circundantes, a que se acrescentava o longo dia a pedalar, rapidamente caímos no sono.
           

02 de Julho de 2018 - Etapa #7: Gammertingen/Mäichingen (81,55km c/ 938m D+)
O nosso último dia de aventura ciclística por terras germânicas voltou a amanhecer solarengo. Levantámos cedo, como hábito, e depois do pequeno-almoço na autocaravana fizemos-mos à última etapa, cujos primeiros quilómetros se desenrolaram junto à ribeira que nos fez companhia no parque de merendas.

Após apenas 6km voltámos à luta com o gps, pois o track mais parecia um novelo cheio de pontas. Isto porque, viemos a descobrir 30min., uns litros de suor e 3,5km depois, já que subimos a bom subir, após havermos seguido mais algumas direções que se revelaram incorretas, que o track nos levava exatamente pelo planeamento inicial, onde se previra a existência de um parque de campismo nas redondezas ao local onde havíamos pernoitado, este dotado de todas as condições necessárias e até companhia de outros campistas, o Untere Krumme Steige, cujo plano acabáramos por não seguir por falta de informações concretas.

De volta ao rumo correto, o nosso trilho continuou pelo interior da bonita floresta e novamente campos agrícolas, onde de quando em vez tivemos o privilégio de avistar veados, mas também presenciar a existência de inúmeros e por vezes enormes crucifixos nos campos junto aos caminhos, sob crença religiosa de proteção às colheitas. Incrivelmente, por vezes, em plena floresta e campos, seguimos por caminhos agrícolas (e/ou ciclovias) de pisos asfaltados e de extrema qualidade.

 
Algumas passagens foram mesmo idílicas e inesquecíveis, como foi o caso de Honau, onde nos esperava uma ciclovia asfalta que foi a mais longa e inclinada descida de toda esta nossa travessia, desenhada por entre um bosque imenso e antecedida de uma pequena paragem num miradouro a uns bons 300 metros abaixo do nível do majestoso e imponente schloss Lichtenstein (Castelo de Lichtenstein, também conhecido por Castelo do Conto de Fadas), situado a +800m acima do rio que corre no canal que ali nos separava, inacreditavelmente construído numa zona escarpada por volta do ano 1100dc.

 
A nossa meta aproximava-se rapidamente, mas apesar de se localizar numa das zonas mais urbanas entre todas as nossa passagens, a escassos quilómetros de Estugarda, as passagens por dentro de florestas mantiveram-se quase até final, bem como os pisos de terra batida, por vezes com retas de centenas de quilómetros.

 
Como o ritmo era elevado, devido à euforia do último dia, optámos por parar para almoçar pouco passava do meio-dia, a escassos 12km do final da etapa, na movimentada cidade de Holzgerlingen onde encontrámos uma bonita esplanada e pude mais uma vez saborear a que passara a ser o meu tipo (ales – de alta fermentação) de cerveja alemã perdileta, a hefeweisen – também conhecida por weizenbier, weissbier ou hefeweissbieré, a qual é um tipo de cerveja feita de malte de trigo, malte de cevada, lúpulo e levedura, normalmente a rondar entre os 5 e os 6 graus de álcool.

Nos últimos quilómetros tivemos de fazer algumas pequenas alterações ao track original, o qual ladeava a linha ferroviária, estando esta a ser alvo de remodelações ao longo de diversos quilómetros com inúmeros cortes nos caminhos nas zonas urbanas e rurais. Subitamente começámos a ver a casa do nosso amigo Pedro, o que significava que a nossa aventura btt de 2018 estava a chegar ao fim após 7 dias gastos, 700km percorridos (bicicleta, mas complementados também por carro, navio e comboio) sendo 580km a pedalar (com 7.100 metros de acumulado positivo), com muitas histórias para contar e vários lugares incríveis visitados.

Resta-me agradecer todo o apoio que nos foi simpaticamente dado pelo Pedro Loureiro, Estela Pombo, Carlos Navalho, Marina Navalho e João Ferreira, à logística deste nosso projeto. Aos restantes elementos que integram este nosso grupo de elementos travessias e que, por razões pessoais e profissionais não nos puderam acompanhar desta vez, lamento não ter tido a vossa companhia. 

Deixem os vossos comentários a esta reportagem e ao vídeo! Obrigado.

Para ver todas as fotos: álbum de fotos



Créditos à reportagem
Texto: João Valério, internet (várias autores)
Fotos: Carlos Navalho, Pedro Loureiro, Renato Valério e João Valério
Vídeo: João Valério
Apoios: Carlos Navalho, João Ferreira, Pedro Loureiro

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